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Cinco coisas que você precisa comer em Paris – e, o mais importante, onde!

Antes de revelar o ouro que o título do post promete, compartilho 350 palavras do meu íntimo direto pra vocês. Não se furtem da leitura… quem sabe tenham alguma utilidade. Lá vai ::::

No exato momento em que escrevo estas linhas, já tenho duas mãos nervosas, três aplicativos e uma agência de turismo trabalhando a meu favor, espremendo os preços e vasculhando a internet pra reduzir a zero, mais uma vez, a distância entre mim e outro voo de longa duração. Esse é o post derradeiro da aventura #comerecorreremparis, uma viagem que foi planejada, aguardada e desfrutada à altura.

As minúcias que se desdobraram até eu finalmente embarcar no Royal Air Maroc em direção ao aeroporto de Orly, com escala em Casablanca, fizeram dessa viagem um episódio memorável da minha vida. Mas nem em sonho, nem nas minhas melhores miragens, eu poderia prever tantas e tão maravilhosas descobertas. Saiba você que isso pode acontecer em qualquer lugar e qualquer distância de casa…mesmo a nenhuma distância. Isso não é uma receita de bolo, é um compartilhamento, apenas.

Eis que, abrindo o peito para o novo, coisas maravilhosas vieram a meu encontro. Se nunca lhe ocorreu, saiba que é perfeitamente possível. E, depois disso, você não vai querer e não vai encontrar sua velha vida de volta. Porque, caminhando na beira do Sena (ou na Times Square, no Taj Mahal, pelas ruas de Ipanema ou pescando ali do lado) você vai traçar maravilhosos planos que vão mudar a sua vida. Magicamente, todo o passado e o presente passam a se encaixar e fazem um sentido tão óbvio quanto os quatro lados de um quadrado.

É bem nítido como cada fato pregresso levou-me até Paris nesse começo de outono europeu. O que lhe ofereço nesse texto e nos outros três da série (clique aqui, aqui e aqui para ler) são mais que sugestões gastronômicas – são um pedaço do que fui e sou. É o meu olhar fascinado pelas coisas da vida. Se você pudesse sentir comigo como o sol brilhava pleno ou a noite brisava fresca quando comi cada uma dessas cinco coisas abaixo, então você entenderia como me senti viva em cada pegada dessa pequena viagem.

Daqui em diante, as coisas maravilhosas da Serra Gaúcha e outras andanças próximas povoarão esse blog até que uma nova viagem chegue. Que chegue logo!

 

Baguete no melhor de Paris

A boulangerie La Parisienne teve sua baguete eleita como a melhor de Paris e foi a fornecedora oficial da presidência francesa no ano de 2016. Tinha planejado uma visita nos últimos dias de viagem, mas tropecei ali logo no primeiro dia. Ótimo, comprei um enorme de um sanduíche e levei pra comer em “casa” por 4,30 euros. O pão dos parisienses realmente é delicioso e faz parte da vida cotidiana.

Boulangerie La Parisienne: 52 boulevard Saint Germain, 75005, Paris

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Crepe onde os parisienses comem crepe

O crepe de Paris tem origem na Bretanha e é feito com sarraceno, que na verdade não é trigo e originalmente não tem glúten. Se for salgado, é crepe; se for doce, galette. A coisa é tão enorme que vale por um almoço. O meu comi na última noite em Paris, na autêntica rua Mouffetard, num lugar que não tinha fila de turistas, mas de locais. Aí temos dois exemplares: todos com muito queijo, um com ovo, outro com cogumelos. Preço médio de 4 a 6 euros. Esse vai ficar na memória <3

Au Petit Grec: 68 Rue Mouffetard, 75005, Paris

Facebook: nem página oficial eles têm (risos). Clique aqui para a página de referência!

 

Croque monsieur numa tradicionalíssima casa de chás

Sébastien Gaudard é um dos principais pâtissiers   de Paris, mas não foram os doces que me levaram ao seu fino estabelecimento pertinho do Hotel de Ville. Embora a vitrine da confeitaria fosse irresistível, minha visita teve destino direto: o croquet-monsieur dele foi eleito o melhor da cidade em 2015 pelo jornal Le Figaro. É uma versão com a assinatura de Gaudard, num empratamento bem mais delicado que a versão tradicional, feito com presunto da região do Aveyron e queijo comté com denominação de origem, por 14,50´p´=-po-o-p0 euros.

 

Salon de Thé Pâtisserie des Tuileries – Sébastien Gaudard: 1 Rue des Pyramides, 75001, Paris

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Kouignettes, onde encontrar o original

Essa, sim, é uma descoberta da qual me honro, porque a fiz pura e simplesmente andando despretensiosamente por Paris. O Kouignette® é uma invenção do chocolatier Georges Larnicol para aproveitar chocolates de sua maison que haviam derretido pelo forte verão de 2003 e o calor dos fornos da confeitaria. É uma massa folhada enrolada e recheada; crocante nas bordas e macia ao centro. Eu, basicamente, não consigo descrever a experiência sensorial que é Kouignette, mas comi os meus – de pistache – lambendo os dedos e num caminhar quase flutuante pelas ruas adjacentes de Notre Dame.

 

Maison Georges Larnicol: eles têm três em Paris e outros tantos pela França. Fui neste: 14 rue de Rivoli, 75004, Paris

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Macaron, coma todos, mas não esqueça o Ladurée

Pisou em Paris e não comeu macaron? Então não pisou. Verdade seja dita: você vai encontrar centenas de endereços pra comer essa iguaria, mas a boutique Ladurée é um endereço obrigatório. Na casa de chás da Champs Elysées, você vai pegar uma fila de virar esquina, vai se irritar e talvez até desista. Não vou mentir pra vocês. Comigo aconteceu exatamente isso e, depois de meia hora à espera de um lugar qualquer, virei as costas para a o imponente salão de detalhes dourados e comprei minha caixinha de macarons Ladurée no aeroporto mesmo. Uma caixa delicada com seis macarons por 17 euros. O preço só dá arrepio até a primeira mordida.

Maison Ladurée – 75 avenue des Champs-Elysées, 75008, Paris

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Restaurante secreto da Madeleine: experiência de dar e receber

Por dois anos, planejei encontrar e almoçar no tal restaurante secreto da Igreja Madeleine. Meu imaginário saboreou cada detalhe de uma refeição que eu projetei como misteriosa. Qual nada! O tal restaurante secreto da Madeleine não tem pretensão alguma de ser secreto… porque, na verdade, se trata de um lindo trabalho de benevolência para alimentar os necessitados de Paris.

Minha primeira impressão ao entrar foi de fascínio pelo cenário que ali se compunha. As paredes centenárias da cripta da igreja, vistas de dentro, me fizeram os olhos brilhar.  Enquanto o cliente à minha frente era recebido, observei em panorama tudo o que se desenrolava. A sobriedade dá o tom do restaurante, que não precisa de nenhuma decoração a não ser a história centenária que carrega. No corredor estreito de mesas lotadas, almoçavam muitos parisienses e quase nenhum turista.

No balcão da entrada, a hostess de seus 80 anos me chamou e explicou um pouco sobre o Le Foyer de la Madeleine. Antes de mais nada, precisei fazer uma carteirinha de filiação que custa 7 euros e vale por um ano. Ela dá direito a almoço completo, de segunda a sexta, por 9 euros. O lucro todo se transforma em sopa para os pobres. O restaurante não é secreto, é benevolente!

Essa hostess e todos do serviço estavam identificados com crachás de voluntários – e nenhum deles, provavelmente, tinha menos de 65 anos.

Fui acomodada numa mesa e logo veio um senhor com a água da casa (em Paris, você pode pedir a água da casa, que é perfeitamente potável e de graça) e uma bandeja com entradas diversas à escolha. Peguei a saladinha de pepino com molho de iogurte e segui observando o vaivém dos voluntários.

Depois, veio o prato principal. Ressalte-se que é um restaurante benevolente, não um almoço gourmet. O porco estava ótimo, os legumes tinham gosto de comida de avião e a massa gravatinha era massa gravatinha, bem como parece (risos)!

Vi gente comendo sorvete do tipo cornetto de sobremesa e achei bem apetitoso. Depois pensei que isso se come em qualquer posto de gasolina e aceitei a sobremesa da casa, que era uma espécie de panacotta com calda de amoras. Delicada e quase sem açúcar, como são as sobremesas do parisiense.

No fim das contas, sentei nas escadarias da Madeleine e divaguei sobre a gentileza daqueles voluntários e sua presteza. Fiquei incomodada com a minha própria apatia, mas só conseguia me concentrar na carteirinha de filiada ao restaurante e minha vontade imensa de voltar ali nesse um ano de validade do meu cadastro. Aquilo ficou pairando em mim enquanto o solzinho pós-almoço me aquecia o rosto. Aí o whatsapp apitou: “Carol, qual é a boa pra hoje?”. Era o fotógrafo, amigo do padre peruano da Madeleine. O que veio depois foi ainda mais surpresa que o Foyer de La Madeleine!!!

 

Le Foyer de la Madeleine

De segunda a sexta, das 11h45min às 14h

Entrada pela lateral da Igreja de La Madeleine.

O perfil do restaurante no TripAdvisor traz umas críticas bem malvadas de pessoas que obviamente desconhecem o objetivo e funcionamento da casa. Se interessar, clique aqui!

A vida parisiense no restaurante Tribeca da Rue Cler

Essa foi minha terceira vez em Paris e, por sorte, evitei atalhar, ganhar tempo com metrô ou ônibus. Fui aproveitando os dias de sol em longas caminhadas, muitas vezes sem destino, mas que sempre me entregavam no lugar certo e na hora certa.

Alguns lugares, como Paris, nunca esgotam. Não desbotam. É só abrir os olhos para as cores da vida real parisiense, aquela que está nas adjacências e na poesia urbana. Pedaços de cotidiano como a Rue Cler, que é quase um recorte da verdadeira cidade de Paris, merecem a passada.

A curta Rue Cler tem açougue, mercado de frutas, lavanderia, brasserie, loja de vinhos, de souvenires e o excelente café Tribeca. Esse é um daqueles lugares com horário turístico, mas que recebe um bom público local e fica disputado no happy hour, pontualmente das 16:00 às 19:00.

As cadeiras, sempre voltadas pra rua <3

O Tribeca abre das 8:00 até a uma da manhã. Cheguei tarde para os drinks de preço ótimo do happy hour, mas peguei uma mesa ótima para jantar. As pessoas ao meu redor comiam pizza e burguer. Mas tem os Plats Du Jour e as especialidades da casa. Não tem desculpa, eles têm menus em inglês e wi-fi se eu quisesse traduzir alguma coisa do menu.

Salmão eu sempre prefiro cru porque as pessoas não acertam o ponto. Esse estava perfeito <3

A cozinha francesa é primorosa e referência para a sociedade ocidental ao longo dos séculos. O prato tem tanta cor <3 Comi por dois nessa noite. Primeiro, o salmão com legumes, o azeite aromatizado e o limão siciliano, por 16,50 euros.

Sim, é carne crua, mas faz parte do repertório da gastronomia francesa. É preciso arriscar

Depois, já que eu estava com tempo, fui no embalo do steak tartar que a moça da mesa ao lado tinha pedido. Não foi a minha primeira experiência, mas é sempre aquela primeira garfada de desconfiança. A carne era bem temperada e definitivamente estava fresca. Com uma venda nos olhos, eu nem notaria que se trata de carne crua. Era bom, fato. Não anotei o preço, mas regula com o prato de salmão.

Esse mojito elevou meus padrões de aceitação em relação a mojitos. Não sei como vai ser agora

Também tomei um mojito maravilhoso por 9 euros. Fiquei lá, mexendo e remexendo o meu mojito.

#paris2024 #pointofview #loveparis #vivelafrance #olympics #anouslesjeux

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Depois disso, sem sobremesa, caminhei sem rumo até ver no céu uma pontinha da Torre Eiffel. Guiei meus passos por ela e me atirei no gramado do Champ de Mars pela primeira vez, sozinha.

Tribeca Paris
36 Rue Cler, 75007, Paris

O Facebook deles é megadesatualizado. Mas segue porque ajuda, pelo menos, a achar o lugar (risos). Clique aqui!

Le Procope: o restaurante de 300 anos!

As lendas são mesmo muito maiores que qualquer recorte ordinário da realidade. Diante do famoso chapéu de Napoleão esquecido no restaurante Le Procope, tive um flashback da estranheza ao repousar os olhos pela primeira vez na Monalisa. Como podem – Monalisa e a cabeça de Napoleão – ser tão pequenas? Aquele chapéu daria uma cabeça infantil, mas, ainda assim, deslumbrei. Entrei. Pedi uma mesa e dei 30 minutos de um minucioso passeio pelos salões interligados do restaurante antes de me sentar.

 

A pequeneza se limita ao chapéu. À parte disso, as poltronas, paredes, cadeiras e o veludo vermelho avalizam a imponência que só um restaurante com o título de segundo mais antigo do mundo pode ostentar.

 

A história contada nas centenas de quadros, livros emoldurados, bilhetes e memórias do Le Procope somam os mais de 300 anos de história do lugar. A empolgação de estar ali transborda.

Num ponto nobre de Saint Germain, o Le Procope abriu as portas em 1686, acredite. Foi o primeiro café literário e a primeira sorveteria da França. Hoje é um restaurante de menu francês e passagem diária de centenas de turistas – a maioria dos quais não faz ideia de onde está pisando. Exceção para o grupo de brasileiras com que cruzei no toilette e que estavam acompanhadas de uma guia!

No século 18, muito antes do advento da geladeira, o café servia 80 sabores de sorvete. Foi reduto dos mais importantes personagens da intelectualidade, política e arte francesas. Todos retratados em quadros e objetos pessoais com que  certamente presentearam o dono.

Quantos chapéus, quantas carruagens, quantos charutos e lamparinas não devem ter passado por ali? Diz-se que o primeiro esboço da Enciclopédia nasceu no Le Procope e que, numa dessas mesas, Benjamin Franklin escreveu o que seria a declaração de independência dos Estados Unidos.

Fiquei atônita por um momento diante do que seria o último bilhete escrito por Maria Antonietta antes de sua execução.

A atração indefectível do Le Procope, entretanto, é o chapéu de Napoleão, esquecido ou deixado no café como pagamento de uma dívida ainda quando era um tenente na Revolução Francesa é exposto à entrada. Antes dele, passaram por ali Molière e Voltaire. Depois de Napoleão, Balzac e Victor Hugo. É surreal imaginar.

Pra evitar a complicação de um menu extenso, muitos turistas – eu inclusive – optam pelo menu do dia, com três opções de entrada, prato e sobremesa. O almoço completo sai por 28,90 euros.

O que comi foi um gaspacho de legumes – que é naturalmente frio, mas opostamente apimentado. Inusitado sentir-se ruborizar mesmo tomando algo gelado.

O prato principal, frango supremo, foi uma delícia de sabores. A carne suculenta, o molho saboroso e a cama de batatas no ponto exato.

A sobremesa poderia ter sido creme brulée, mas Ainda bem que pedi a torta de maçãs. Estava demais! Comi tudo embalada por uma única taça de vinho tinto, pois a caminhada que estava grande até ali, tinha mais muito a prosseguir.

Durante alguns anos, o Le Procope ficou fechado; depois, voltou a operar como restaurante e com brilho apagado pelo tempo. Há uns 30 anos, foi comprado pelo grupo Les Frères Blanc, que revitalizou vários restaurantes históricos em Paris.

 

Le Procope

 13 l’Ancienne Comédie, 75006, Paris

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