Arquivo da categoria: Slow Food

Rolha livre nas quartas e quintas do Valle Rustico

O menu confiança do Valle Rustico, must have da gastronomia conceitual na Serra Gaúcha, há muito já ultrapassou as barreiras do que se espera para um jantar, alcançando nuance de uma quase aula sobre resgate e aproveitamento de ingredientes não-usuais e combinações extraordinárias. Nessa temporada, o Valle Rustico facilita a vida do cliente liberando a rolha nas noites de quarta e quinta. Menu de nove etapas por R$ 130,00 e você pode levar de casa o vinho ou espumante sem custo de serviço.

Como ativista do movimento Slow Food, o chef Rodrigo Bellora reforça na mesa o que vem defendendo em suas palestras e cook shows Brasil afora: a valorização do produto e do produtor local.

Em nove passos, o menu confiança apresentado pelo Valle Rustico surpreende não pela finesse das matérias-primas. Ao contrário: será servido urtigão, mas num conceito e empratamento que poderia facilmente ser emoldurado e pendurado na parede como adorno. A apresentação de cada prato é cuidadosa e a escolha do que nele vai, mais ainda. Os pratos já não são da estação, mas refletem a oferta da horta na semana. Por isso, já há alguns anos, o restaurante não tem menu. Você paga pela surpresa.

O menu confiança que testei é esse abaixo, mas é como dito antes: muda todo dia , de acordo com a oferta da horta e dos fornecedores.

O que sempre tem é essa primeira tábua de pães frescos: pão branco, pão de fermentação natural, pão de queijo e broa de milho – aqui, servidos com pesto.

A segunda entrada é uma cama de crocante de aipim com maionese picante. Sobre ela, carne de coelho. O quadradinho é um tijolinho de porco griss com mostarda de crem e urtigão, Plantas Alimentícias Não-Convencionais (Pancs) são especialidade do Valle Rustico e aparecem mais de uma vez nesse menu confiança.

Aí, começam os pratos. Eis o espaguete de chuchu aos cogumelos. Fora os pães da entrada, o menu confiança do chef Rodrigo Bellora é sempre mais baseado em carnes e vegetais. Essa adaptação com o chuchu é a melhor imitação de pasta da vida.

Quando chegou o magret de pato, torci o nariz. Já me decepcionei algumas vezes com carnes muito duras…mas essa tinha maciez e sabor. São patos criados soltos. Produção local. Aqui, é servido com azedinha e calda de butiá que dá uma acidez bem proeminente.

A carne seguinte é um peixe Meca com caldo de peixada, servido com uma farofinha de camarão e o raminho de funcho por cima, que dá outro significado ao prato.

Variedades diferentes de milho dão origem a essa polenta, servida com cogumelos e o ovo perfeito.

Ainda vem um matambre, outra surpresa da cozinha do Valle Rustico. Macio, poderia ser comido de colher. Nessa receita bem campeira, vem recheado com farofa de pinhão e servido sobre cama de purê de batata cará, farofa e torresminho. Sobre a carne, um enfeite de salsão e mais uma Panc: Major Gomes, uma ervinha suculenta e que já foi muito desprezada por ser considerada daninha.

Depois disso, chega. É hora de adoçar a vida. O penúltimo passo do menu confiança é uma tábua de doces pra compartilhar: bananinha, pien de doce de leite, tortinha e um creme de erva mate que poderá não agradar totalmente os paladares convencionais.

O último passo do menu confiança não é de comer, mas de passar. São pétalas perfumadas pra fazer um carinho nas mãos enquanto você pede uma dose do limoncello da casa – aconselho com veemência!

Pro meu jantar de rolha livre, levei um Chardonnay ótimo da Bertolini, que o Valle Rustico também oferece na carta.  <3

 

Valle Rustico

Nota no Google: 4,6 de 5,0

Nota no Foursquare: 8,9 de 10

Nota no Trip Advisor: 4,5 de 5

Via Marcílio Dias, Garibaldi (Vale dos Vinhedos)

Aberto de quarta a sábado para o jantar; aos domingos para almoço

Facebook: clique aqui!

Setembro Verde: onde curtir na Serra Gaúcha

Em setembro, o Culinarismo te convida a refletir sobre hábitos alimentares. Você consome os 400 gramas diários de frutas e hortaliças recomendados pela Organização Mundial da Saúde? Comer melhor é uma questão vital e o movimento Setembro Verde é mais que necessário pra disseminar a importância de uma alimentação saudável, especialmente como uma mensagem positiva para as crianças, e exaltar o pequeno produtor rural.

Restaurantes de todo o país também estão envolvidos, criando pratos e programações para esse mês tendo como personagem principal os alimentos frescos e produtos da terra. O Culinarismo faz parte do movimento e apoia os restaurantes engajados no Setembro Verde. Na Serra Gaúcha, são dois lugares espetaculares.

monã

Em Canela, o Monã Natureza, Hospitalidade e Cultura abrirá suas portas nos sábados de setembro convidando avós da comunidade a passarem adiante sua experiência sobre hortas urbanas, numa ação de multiplicação do conhecimento em que os visitantes serão convidados a plantar, colher e ver de perto o poder das plantas. O cardápio vai dar ênfase ao milho – uma das sementes que, segundo Castelli, mais deve ser protegida hoje em função da erosão genética.

VR

No Valle Rustico, em Garibaldi, onde 80% do menu degustação já tem os vegetais como protagonista, o chef Rodrigo Bellora vai dedicar todo o mês ao Setembro Verde, com um menu privilegiando a temporada de tubérculos, com receitas levando cará, inhame, diferentes tipos de mandioca e batatas, gengibre, cúrcumas.

Você também pode – e deve – participar. Primeiramente, reflita sobre a sua alimentação e suas escolhas. Pense em incluir mais ingredientes frescos, produtos da terra. Agora é a hora de tirar do papel aquela velha ideia de ter uma hortinha em casa e ter mais vida no seu prato. E , além de tudo, você pode levar essa ideia adiante sendo mais um porta-voz. Acesse o Setembro Verde clicando aqui e veja todas as ações e apoiadores!

Faça sua vida mais verde: vamos comer melhor?

Memorável experiência na Locanda di Lucca

Essa é uma história que começa pelo final. Lá pelo terceiro prato, depois do brinde, da modinha italiana embalada pelo acordeão e da lareira acesa, o anfitrião da Locanda di Lucca conseguiu emocionar com poucas palavras. Edgar Giordani falou do amor com que se recebe as pessoas ali e do profundo respeito à natureza em cada processo – desde a escolha e preparo dos alimentos até a mínima intervenção na casa centenária que abriga o restaurante. Senti verdade. E ele terminou com uma frase tocante: “Não posso servir ao meu irmão alimento envenenado”.

DSC_3876

A partir daí, a Locanda di Lucca ganhou uma fã e uma embaixadora. Eu sempre me apaixono pelos restaurantes que tratam a comida como um tesouro cultural e não pura e simplesmente como um negócio. Porque alimentar as pessoas é estar amarrado na vida delas, nem que seja por um instante fugaz, um domingo de sol, um jantar de aniversário. Isso é bem mais que vender banana, entende?

Não vou me alongar nisso. Vamos ao que interessa sobre Locanda di Lucca. É um restaurante orgânico, no interior de Bento Gonçalves – precisamente no interior do distrito de São Pedro, numa casa centenária que foi minimamente modificada para abrigar o restaurante, inaugurado em maio de 2016 e aberto somente aos sábados e domingos, preferencialmente sob reserva. Grupos são bem-vindos durante a semana também.

DSC_3860

O mobiliário e a decoração acompanham a filosofia de preservação histórica – afinal, os anfitriões são um enólogo e uma arquiteta doutoranda Paisagem Cultural Vitícola na Serra Gaúcha pela UFRGS. O menu degustação é sazonal, como tudo que é orgânico e os conceitos de produção biodinâmica também permeiam o menu. Em lugar de destaque no salão, o quadro do movimento Slow Food reforça aos visitantes que ali se faz comida com respeito à natureza.

DSC_3869

Antes do que se come, preciso contar que a Locanda di Lucca não vende água (a água saborizada da fonte está inclusa no menu degustação); não vende refrigerante e concentra sua carta de vinhos na produção nacional. Edgar está trabalhando numa produção de vinhos e espumantes biodinâmicos da casa para o futuro. Tudo faz parte da filosofia do lugar, como a entrada: lascas de pão orgânico com caponata também orgânica com tudo o que é produzido na propriedade.

DSC_3870

Enquanto o anfitrião acendia a lareira, veio a sopa de cabotiá, com crispy de copa e lascas de queijo cichelero, que ele faz questão de dizer que não é orgânico, pois ele ainda busca um bom fornecedor nesse sentido.

DSC_3878

Expressando o trabalho da casa com pancs – as plantas alimentícias não-convencionais – o primeiro prato é uma tortinha com massa de batata cará orgânica e farina de beterraba, recheada com creme de brócolis e radicci selvagem. Cenouras crocantes com muçarela fresca e um azeite e alta qualidade completam o prato, que se apresenta com a aquarela de um artista.

DSC_3884

A salada também não é qualquer salada. Aqui, as folhas orgânicas são temperadas com suco de laranjas orgânicas e o mel da Locanda di Lucca, que é um cuidadoso trabalho do anfitrião nos princípios da produção biodinâmica.

DSC_3889O segundo prato traz arroz sete grãos biodinâmico e uma experiência quase inenarrável com essa costelinha de porco temperada com coisas da casa e cozida lentamente na panela, com o charme do crispy de couve e um purê de pera que entrega uma surpreendente acidez ao prato. Realmente Edgar tinha toda a razão quando disse que se tratava de um grande momento gastronômico.

DSC_3886

Olha a delicadeza do lugar em preparar um prato especial pra ajudante de Culinarismo <3

DSC_3892

A sobremesa é um tesouro da casa com grande sabor, aroma e identidade. O sorvete de mel biodinâmico é servido com farofa de esfregolá, geleia de laranjinha kinkan e calda de merlot.

Toda a experiência custa R$ 98,00 por pessoa. Apenas vá!

Locanda di Lucca

Nota no Google: 5,0 de 5,0

Nota no Foursquare: ainda não possui avaliações suficientes para pontuar

Nota no Trip Advisor: 5,0 de 5,0

Linha Palmeiro 340, distrito de São Pedro, Bento Gonçalves – RS

Aberto aos sábados e domingos, das 11:00 às 19:00. Aceita reservas de grupos para outros dias

Facebook: clique aqui!

Experiência genuína no Champenoise Bistrô

O Champenoise Bistrô é daquelas novidades gastronômicas que atrai muitos olhares curiosos e, de fato, engrandece o repertório gastronômico local. Desde sua inauguração, em dezembro, é a vedete da rota dos espumantes de Pinto Bandeira – não somente porque extrapola os limites da culinária italiana, nem pela verdadeira obra prima servida à mesa, porque essa é apenas a ponta do iceberg. O que há de mais bonito e importante no bistrô é o que acontece nos bastidores e como os donos do negócio levam a efeito a filosofia slow food do prato à taça.

DSC_7411
ajudante de Culinarismo <3

Não se trata de um negócio, apenas. O pequeno restaurante é a materialização de um sonho sonhado pelo casal Marina Santos e Isarel Dedea Santos. Ela, enóloga com especialização em agroecologia. Ele, um chef de cozinha, pesquisador, experimentador da gastronomia. Suas ligações com o movimento slow food podem ser sentidas em cada prato dos menus degustação e, mais que isso, nas taças de Vinha Unna, que revelam um tesouro da vinificação ancestral. Quando você compreende a complexidade e a beleza do que é servido no bistrô, apaixona-se de pronto.

DSC_7416

Pra entender isso, visitei a propriedade do casal e vi de perto o cultivo orgânico de hortifrúti que serve de inspiração para o chef. Também degustei os delicados vinhos orgânicos e biodinâmicos produzidos por Marina e realmente fiquei perplexa com minha ignorância, até então, sobre a possibilidade de se vinificar uma uva que já é orgânica sem adição de nenhum tipo de levedura ou composto químico. É a natureza fazendo seu trabalho como se dava desde o Egito antigo e é um orgulho saber que tão perto de nós está uma das poucas enólogas brasileiras a resgatar essa técnica.

Tudo isso já credencia o bistrô como um acontecimento inédito e inusitado mesmo antes de se sentar à mesa. É pauta, é notícia, é um modelo de empreendedorismo pouco visto em nossa região. É uma agenda positiva que merece um olhar carinhoso. Mas aí você senta e a mágica se materializa.

DSC_7395

Minha reação foi agradecer aos céus pelo privilégio que começa pelos pães de fermentação natural oferecidos como couvert. O pesto é orgânico, como tudo o que é posto no prato. A manteiga é produzida pelo bistrô. A água é da fonte.

DSC_7593

O projeto de Marina e Israel demorou um bocado pra poder ser visto pelo público. À beira da estrada de Pinto Bandeira, a casa de 1927 que abriga o bistrô estava há muitos anos sem uso e precisou de uma completa reforma. Mas o resultado não poderia ser mais autêntico em sua confortável rusticidade.

DSC_8784

O bistrô abre de quinta a domingo para o almoço, com três opções de menu – ah, o menu (corações apaixonados). A entrada que muita gente vem postando no Instagram é essa aqui: uma flor de abóbora recheada com melão, copa artesanal e queijo pecorino da região. De fato, uma belíssima ideia.

DSC_8782

Eu, que pedi o outro menu, não me arrependi do folhado de pato com molho de espumante rosé e amoras. Detalhes citados na carta, como o “pato criado solto”, encantam e dão ainda mais significado para o que é servido.

DSC_8786

Essa é a entrada de dois dos menus. Depois temos um primeiro prato, um segundo prato e uma sobremesa. Os primeiros pratos, como na Itália, são massas. Um tortellini gratinado de codorna ao molho de ervas, que estava muito bom…

DSC_8789

e um caramelle de açafrão da terra recheado com zuchini defumado. Leve e delicado.

DSC_8795

As carnes, arrebatadoras. Para o menu que tinha a flor de abóbora como entrada, galinha caipira recheada com cebola doce e acompanhada de purê de moranga.

DSC_8790

Para o menu que tinha o folhado como entrada, carré de porco e pêssego grelhado.

DSC_7407

E para encerrar, sobremesas marcantes como esse gelato de espumante com calda de pitanga. Superverão!

 

A experiência tem preço justo. Os menus degustação tem preço que varia de R$ 65, R$ 75 e R$ 85. Na carta, além da Vinha Unna, figuram rótulos de outras vinícolas da região selecionadas pela enóloga.

 Champenoise Bistrô

Linha Amadeu, Pinto Bandeira

Aberto de quinta a domingo, para o almoço

Reservas: 54 9175-2732

Facebook: acesse aqui!

Valle Rústico, equilíbrio perfeito entre eno e ecogastronomia

Existem muitos e maravilhosos restaurantes na Serra Gaúcha, todos com seu charme e seus temperos, mas se o mundo fosse acabar amanhã e eu tivesse apenas mais um jantar, não precisaria de três segundos para decidir o meu banquete final.

DSC_7194O Valle Rústico tem a estima e o respeito de toda a comunidade gastronômica da região e, a partir desse ano, o chef Rodrigo Bellora simplesmente abriu mão do cardápio em nome de um menu único. A decisão é audaciosa, mas longe de ser um capricho. Está atrelada tão e somente ao respeito pela natureza e ao que ela oferece dia a dia.

DSC_7197Esses são os princípios do movimento slow food – comida boa, limpa e justa. Cada prato do menu experiência vale por uma aula de cidadania e apesar da entrega irretocável, fica claro que a verdadeira mágica acontece muito antes da mesa. Preparar uma receita praticamente do zero, abrindo mão deliberadamente das facilidades que a indústria alimentícia oferece, é um processo complexo, delicado e, ao mesmo tempo, corajoso.

DSC_7207O Valle Rústico tem seis anos, mas a horta orgânica nasceu antes disso e foi crescendo em sua oferta até se tornar uma colônia. Hoje, alimenta até 800 pessoas por mês. São 12 hectares onde se cultiva tudo o que o restaurante necessita para seu cardápio e seu projeto que entrega semanalmente para um grupo de assinantes o melhor da produção livre de agrotóxicos.

DSC_7229Na propriedade há vaca leiteira e bezerros. A cozinha produz seu próprio queijo, iogurte, doce de leite, manteiga. Seu próprio mel, suas alcachofras, suas begônias. Suas frutas e sua cana. O milho de sua polenta. A mandioca de sua farofa. Tudo o que a terra dá é matéria-prima para o chef Rodrigo Bellora e sua equipe e o que não sai de suas próprias terras vem de produtores locais com a mesma filosofia e o mesmo cuidado no cultivo.

DSC_7239Diante de tudo isso, é uma verdadeira honra desfrutar de um menu experiência escolhido pelo chef e baseado nos seus melhores ingredientes. Você verá a seguir.

DSC_7277Pão artesanal de cereais pra abrir e água da fonte pra acompanhar a refeição.

DSC_7281Cabrito com purê de batata doce.

DSC_7283Salada de flores e folhas com degorgement de espumante.

DSC_7298Polenta com cogumelos.

DSC_7304Entrecot com chutney de beterraba.

DSC_7308Costela , feijões e farofa de alho.

DSC_7319

 

 

Sorbeto de amora com ricota da casa.

DSC_7323Pien de mel. Melhor coisa ever.

DSC_7324

 

 

E, para encerrar, gentilmente recebemos flores cremosas. Essas não são de comer, mas de passar nas mãos, deixando a lembrança de uma refeição impecável e responsável.

 

DSC_7267

Um tiquinho de limoncello pra encerrar de verdade e está feito o banquete do juízo final (risos).

O menu experiência do Valle Rústico sai por R$ 100,00. Harmonizado com vinhos e espumantes da região, R$ 150,00.

Valle Rústico

Linha Marcílio Dias – 15 da Graciema – Vale dos Vinhedos

Contato: 54 3067-1163 / 8123-0080

De quarta a sábado, para o jantar. Domingos, para o almoço

Site: acesse aqui!

Osteria Della Colombina: mais que uma refeição, uma contemplação

*Alerta de post longo. Desculpa, mas vale a pena

 

Quando criou o movimento Slow Food, há 26 anos, o jornalista italiano Carlo Petrini o fez por acreditar na gastronomia como via de transformação. Por acreditar no respeito ao meio ambiente, na biodiversidade e num modo de vida menos massivo. Eu também acredito nisso. A gastronomia boa, limpa e justa movimenta o corpo, a alma, comunidades inteiras, a economia e o planeta. Vi de perto essa transformação quando bati à porta da Osteria Della Colombina e provei de uma comida tratada como expressão cultural.

DSC_6938

Coisas mágicas acontecem da propriedade Bettú Lazzari, no interior de Garibaldi, que pertence à família desde o primeiro imigrante a pisar no Brasil. Por três gerações de agricultores, a mesma terra deu-lhes, mas, viúva precocemente, Odete e as quatro filhas mulheres não puderam manter o ritmo de produção das videiras e vacas leiteiras. A propriedade começou a se degradar e as mais velhas se mudaram para a cidade, num movimento de êxodo rural que se repetiu com centenas de famílias na Serra Gaúcha.

DSC_6957

A caçula Raísa provavelmente seria a próxima a deixar o interior se a mãe não estivesse com o ouvido ligado no radinho quando a prefeitura de Garibaldi anunciava a criação de um projeto-piloto de turismo rural. Durante dois anos, Odete e as filhas preparam a casa e a propriedade para a criação da Estrada do Sabor. Em 2001, abriram as portas para os primeiros turistas e aí começa a transformação que a comida boa, limpa e justa é capaz de promover.

DSC_6943

Pra começo de conversa, a propriedade agrícola tem certificado de produção orgânica. Tudo o que é produzido na horta, nos pomares e no curral é livre de agrotóxicos e vai direto da terra para a cozinha. Impressionantes 75% do que é servido aos clientes é produzido ali mesmo – incluindo o queijo, o suco e o vinho. Além de parada obrigatória na Estrada do Sabor, a família Bettú Lazzari é uma das fundadoras do convívio local do Slow Food na Serra Gaúcha. Também é um dos estabelecimentos que faz parte do Tour da Experiência, uma iniciativa do Sindicato Empresarial da Gastronomia e Hotelaria (SEGH).

DSC_6941

Isso é movimento, é engajamento, é a transformação de que Carlo Petrini fala. Já seria o suficiente pra esse post, mas ainda nem falei da comida. No porão da casa da família, ainda de chão batido e ornamentado com objetos centenários, serve-se muito mais que um cardápio farto. Serve-se um resgate histórico da imigração italiana, representado por objetos de família e pela honestidade de cada receita. Acompanha comigo:

DSC_6968

 

 

O limoncello, feito com os limões do pomar…que bebi na hora errada, antes do almoço 😉

 

 

 

DSC_6971

Pra abrir os trabalhos gastronômicos, uma tradicionalíssima polenta brustolada com queijo e salame.

DSC_6982

A sopa de capeletti, para mim, é a maior representação gastronômica da cultura, dos fazeres e dos sabores do imigrante. A sopa da dona Odete, natural e autêntica, dificilmente será superada.

DSC_6984

A salada orgânica tem sabor de verdade e traz a delicadeza das flores comestíveis: flor de crem e dente-de-leão.

DSC_6987

A sequência de pratos principais é tipicamente italiana. Ou seja, farta e forte.  O nhoque aos três queijos acompanha uma galinha ao molho lentamente cozida em molho de tomate e especiarias.

DSC_6988

Como se já não fosse suficiente, escalopes de carne com legumes grelhados e bacon…

DSC_6991

 

…e uma tradicional fortaia. Depois podia repetir tudo, mas nem que eu quisesse conseguiria.

 

DSC_7001

A mesa de doces encerra esse banquete slow food que demanda tempo, bom humor e boa companhia para ser desfrutado à altura. Tudo é feito por dona Odete: sorvete de creme e limão siciliano com goiabada; compota de laranja e os biscoitinhos típicos chamados de sfregolá.

A Osteria Della Colombina atende somente com reservas para grupos, mas você pode fazer como eu e se encaixar em um grupo maior, aproveitando a agenda de abertura da casa. Vá com tempo: essa é uma refeição que não se faz em menos de duas horas.

DSC_7007

 

 

Cada visitante da osteria leva consigo uma pequena colombina, tradição dos imigrantes que Odete orgulhosamente preserva e dissemina.

 

 

A experiência completa custa R$ 55,00 (bebidas à parte). E, além de tudo que come estando lá, também dá pra levar um pedacinho da osteria para casa com as geleias, compotas e conservas orgânicas de dona Odete. Espero ter conseguido expressar que não se trata apenas de uma refeição, mas de uma reflexão e uma contemplação.

Osteria Della Colombina

Estrada do Sabor, comunidade Linha São Jorge, Garibaldi

Reservas: (54) 3464 7755 ou (54) 9121 1040

E-mail: colombina@estradadosabor.com.br