O sabor cosmopolita de Buenos Aires – parte 1

Minhas férias em Buenos Aires terminaram com quilos a mais na balança e um peso extra na consciência. A cidade é linda, sob todos os aspectos. A mim, encantou cada ladrilho, vitral e fachada centenária. Em suas calçadas românticas, minha imaginação viajou pelos áureos anos do início do século passado. A história dita o tom do lugar e cada passo dá uma foto perfeita. Mas essa viagem – que lástima – não teve o mesmo brilho. A Argentina passa por maus bocados e registrou o verão mais quente em 30 anos. Não pude ficar alheia ao fato de que boa parte da população portenha passou até 20 dias sem luz, mesmo que no meu quarto de hotel o ar condicionado proporcionasse uma noite de sono tranquila.
As poucas lojas da rua Florida que aceitam cartão estavam liquidando o estoque com pagamento em dinheiro porque não tinham energia elétrica pra se manter funcionando. O recolhimento do lixo também estava prejudicado e muitos moradores reclamaram do descaso da empresa fornecedora de energia. A situação política atual é bem turbulenta. Em meio ao caos da falta de luz, a presidente Cristina tomou um belo chá de sumiço e sequer enviou uma mensagem de feliz ano novo para os argentinos.

Dito isto, vamo-nos ater aos quilos que ganhei em Buenos Aires, dos quais não me arrependo – embora pretenda perdê-los em breve. Verdade seja dita: o serviço dos restaurantes vai de ruim a péssimo, o atendimento é demorado, quase nenhum estabelecimento aceita cartão e existem algumas peculiaridades locais a serem entendidas. Além da ‘propina’ para o garçom, com a qual já estamos acostumados por aqui também, existe a estranhíssima taxa de ‘cubiertos’: ou seja, simploriamente falando, você paga pelos talheres que usa. Na verdade, é uma taxa adicional obrigatória pelos serviços da casa. Estranho, mas faz parte da cultura local e não vale a pena perder o sono nem as refeições memoráveis que se pode fazer por causa desses pesos a mais.
A capital portenha me ofereceu experiências incríveis que quero dividir com vocês em dois posts: a melhor carne, o melhor sushi, a melhor comida mexicana e o melhor restaurante natureba da minha vida até então! Além, claro, de drinks muito loucos em porões escuros e uma overdose de cerveja de bar em bar. A propósito, entre Quilmes e Imperial, a segunda me caiu bem melhor!
Nossa saga culinária em Buenos Aires começou com uns bons drinks no Florería Atlántico, um lugar surpreendente oculto nos porões de uma floricultura e loja de vinhos localizada no Retiro.

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O Atlántico oferece muito mais que uma carta incrível de coquetéis inspirados nos países que povoaram a Argentina. Pra chegar ao bar eleito pela Drink International como o melhor da América Latina e Caribe em 2013, você deve entrar na loja e descer as escadas que se escondem atrás de uma porta de câmara frigorífica.

floreria paredesO cenário é envolvente e nos leva aos mistérios do fundo do mar, com seres mitológicos desenhados a mão nas paredes, pratinhos esmaltados e coquetéis servidos em vidrinho de azeitona (!!!). Tudo de uma displicência calculada que torna o bar ainda mais genial!

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Dizem que o bar pertence a três dos melhores barmans de Buenos Aires, o que não é de se duvidar, se você levar em conta a complexidade da carta de drinques. As opções são divididas por nomes de países, com bebidas típicas dos povoadores da Argentina e, no final, algumas opções extras também – como a capirinha. Impossível provar uma delícia de cada país, porque são muitas e eu certamente daria Perda Total. Mas tomamos um drinque inglês e uma francês, ambos bem ‘diferentex’.

A parilla dá o tom de Buenos Aires, claro! Ela está em todos os cardápios (praticamente todos, como vou contar no próximo post) e, além da qualidade excelente, você encontra bons pratos a um preço muito módico quando comparado ao Brasil. Conheci algumas ‘cabañas’ locais que servem os melhores cortes da Argentina, inclusive uma que cria o próprio gado. Mas o suprassumo do bom atendimento, requinte e da melhor carne da minha vida foi o La Cabaña, em Puerto Madero.

la cabana salao

Com vista para o Rio da Prata, o restaurante tem meros 79 anos de tradição, uma carta de vinhos capaz de agradar ao paladar mais exigente e uma extensa lista de clientes famosos.

Olha quem já compartilhou o mesmo recinto comigo?

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Os restaurantes de Buenos Aires servem entradas deliciosas, com pães quentinhos e um bom vinagrete ou chimichurri pra acompanhar. No La Cabaña não foi diferente. Como o prato principal demora bastante em função do tempo de preparo, você vai se divertindo com alguns mimos enquanto espera. Mas não vale passar da conta na entrada, porque o bom mesmo é a carne. O Gran Baby Beef da casa leva quase uma hora pra ficar pronto, mas como fui ao restaurante pra lá da meia noite, eles apressaram um pouco o preparo dividindo o corte ao meio. Nada que comprometesse a delícia desse prato.

la cabana carne

Se você vai ao país da parilla, não dá pra sair de lá sem uma boa história pra contar. Um restaurante desse nível tem seu preço, mas considerando que é perfeitamente possível gastar menos de 100 reais em ótimas refeições para duas pessoas, então vale a pena separar 800 pesos argentinos pra ter uma experiência única dessas.

La Barrica La Barrica Chorizo

Outra parada gastronômica obrigatória – essa, muito mais roots – é o Caminito. Impossível passar por ali e não se deleitar num belo chorizo ao som de tango e acompanhado por uma Quilmes gelada. Como turista que se preze, obviamente paguei uns trocados pra tirar uma foto fake dançando tango. Mas essa está muito bem guardada!

Tenho mais pra contar, mas deixo pro próximo post! Você não vai acreditar na maravilhosa alternativa natureba que Buenos Aires oferece pra quem não come carne ou precisa desintoxicar!

Florería Atlántico

Arroyo 872, Buenos Aires

facebook.com/FloreriaAtlantico

La Cabanã

Alicia Moreau de Justo, 380

www.lacabanabuenosaires.com.ar

La Barrica

Magallanes, 845, Caminito

www.labarrica.com.ar

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Valle Rústico, uma experiência revigorante

A maioria das pessoas, quando sai para comer, espera ser atendida e servida em 10 minutos. Comemos a galope e pagamos a conta rapidinho pra desocupar a mesa. Afinal, deve haver um consenso de que lugares lotados são os melhores. Nunca lhe aconteceu de o garçom levar os pratos enquanto você ainda mastiga? Não é apenas impressão, eles estão lhe enxotando. Isso é fast food – um monstro que nós ajudamos a alimentar todos os dias, com a pressa e a completa displicência com o que entra no nosso corpo.
Mas nem todo lugar é assim… esta é a história de como subi de uma só vez pelo menos 10 degraus rumo ao meu presente de Natal…
Minha mãe teve uma experiência desagradável com seus cabelos recentemente. Como toda a mulher, ela é do tipo que vai mudando de cabelo conforme muda a vida… Para cada decepção, um tom a menos, um repicado a mais. Infelizmente, ela caiu na armadilha de testar um novo cabeleireiro. Sabe-se lá o que deu errado, mas ela saiu do salão um pouco, digamos, mudada. Nos dias que se seguiram, ela mal colocou os pés pra fora de casa. É incrível como o humor de uma mulher pode ser afetado por essas coisas…
Achei que daria uma animada levar a “muié” pra afogar as mágoas numa sequência de pizzas artesanais maravilhosa no Valle Rústico – no 15 da Graciema, bem escondidinho entre as belezas do Vale dos Vinhedos. Esse restaurante é daqueles românticos, retirados, perfeito pra brindar a dois. A vista é espetacular. Veja bem o que uma filha não faz pelo sorriso de sua mãe 😉
Nesse dia em especial, logo de cara já curti a recepção. Pra mim, o som ambiente fala muito sobre um restaurante. Você não pode agradar a gregos e troianos, mas continuar repetindo a mesma coletânea do Kenny G da década de 1990 é de doer. No Valle Rústico, tocava Franz Ferdinand quando cheguei. Não precisa dizer mais nada…
Tudo eram flores até que o garçom – um querido, por sinal – trouxe a notícia fatídica: as pizzas foram retiradas do cardápio 🙁
E agora? Sempre imaginei que esse fosse o carro-chefe da casa. Elas eram diferentes que qualquer pizza que eu tenha conhecimento na Serra Gaúcha: massa finíssima, farinhas especiais, uma combinação de coberturas irretocável. Bom, quem sabe se algumas pessoas reforçarem o coro, eles ressuscitem a sequência de pizzas. A propósito, já deixo registrado que, pra mim, a campeã das campeãs era a de camarão com gorgonzola!!!

Lamentações à parte, num restaurante como o Valle Rústico, tudo vale a pena. O cheff aprecia e entende tudo sobre carnes. Ele traz de família a tradição uruguaia de bons cortes e temperos fortes, como o chimichurri. E nessa vibe de slow food que o restaurante pratica, a única obrigação é desfrutar sem pressa do seu pedido. O cardápio traz algumas opções completas, com entrada + prato principal saem por R$ 68,00. A propósito, se você aprecia comida como eu, não pode deixar de ler um pouco sobre slow food.

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Antes da entrada, fomos seduzidos por um couvert de abobrinha com salmão defumado. Dos deuses! Pra beber, embora a carta de vinhos da casa seja boa e você também possa levar seu próprio vinho, pagando apenas a rolha, escolhemos uma Saint Bier. Tenho gostado cada vez mais dessa cerveja, especialmente a Belgian Golden Ale. Ela parece descer bem com tudo!
A entrada que pedimos também tinha abobrinha, mas o destaque era pra harmonização do azeite com os temperos. Não me pergunte do que se tratava exatamente, mas o que interessa é que estava tudo perfeitamente fresco. Muita coisa do cardápio vem diretamente da horta do restaurante.

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Como disse antes, o cheff entende tudo de carnes e as harmoniza com perfeição aos acompanhamentos, mas a fama dos risotos da casa também é grande. Sem saber se o resultado final valeria a pena, embarquei numa sugestão muito louca: risoto de linguiça defumada com funcho. Quem pensaria numa combinação tão inusitada? Paguei pra ver e fui totalmente surpreendida pelo visual e o sabor desse prato. Confesso que imaginei outra coisa e que na minha imaginação essa mistura não funcionava.

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Como o cardápio vai variando conforme a estação, talvez você não encontre esse risoto dos deuses – mas estou certa de que haverá tantos outros que valerão a pena. Nesse dia, pulei a sobremesa em prol de uma causa maior chamada dieta. Uma hora você tem que admitir que essa história de blog pode cobrar o seu precinho na balança!!! Eu, que não sou escrava dela, jamais abriria mão de um jantar como esse – que aliás, estava superbalanceado. Mas a sobremesa, sim, dá pra deixar pra próxima. Uma dica valiosa: seja lá qual for a sua escolha, na saída, não deixe de aceitar uma dose do limoncello de fabricação própria do Valle Rústico. Só de pensar, já estou salivando. O sabor é incrível e ajuda muito na digestão.

Sobre a minha mãe, acho que o convite deu uma animada. Ademais, as semanas se passaram e os fios cresceram… Não há nada que o tempo não alivie.

Valle Rústico
Linha Marcílio Dias, s/n, 15 da Graciema – Vale dos Vinhedos
No GPS:
Lat.: 29°11’55,9″
Long.: 51° 34′ 36,9″

Mapa

Telefone (54) 3459-1162 | (54) 8123-0080
www.vallerustico.com.br

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Sobre biscoitos e cestas de Natal

Num domingo de sol rachando, saí de casa com destino ao Vale dos Vinhedos. Naquele dia, fui à caça de um tesouro em especial, algo que vinha povoando minha imaginação e me provocando salivações. Já faz tempo que mantenho um affair com uns biscoitos magníficos que ganhei numa cesta de Natal ano passado.

Sabe como é ser presenteado por alguém que não conhece suas preferências… muita coisa você simplesmente passa adiante ou acaba deixando no armário até passar da validade. Eu, como não gostode frutas secas, sou um tipo suspeito pra ganhar cestas de Natal. Mas aquela cesta, em especial, me pegou de jeito: grana padano, um bom brut, snacks integrais e aquela latinha simpática que ocultava um pacote de goiabinhas absolutamente irresistíveis. Foi um deleite.
Muito tempo depois descobri que os biscoitos eram feitos artesanalmente logo ali, no 15 da Graciema. E mais: a fábrica é aberta à visitação e com degustação de todos os 10 tipos de biscoitos e varejo. A casa é bem pequena e o atendimento, feito a pequenos grupos. Aproveitei pra ir num horário bem impróprio, já no fim da tarde de domingo, testando a hospitalidade da empresa. Acabei encantada com o atendimento e as histórias que ouvi.
Descobri que algumas das receitas são de família e foram “copiadas” do caderno que pertencia à avó das irmãs a quem pertence o lugar. Provei um polvilho doce que me lembrou alguém especial. Além de muito saboroso, é perfeito pra quem sofre com as restrições alimentares: não tem lactose nem glúten!

Elegi meus campeões de preferência:

cacau
Cacau com gotas de chocolate

Um prazer inenarrável que se deve degustar sem ler as informações nutricionais.

Como não sou estraga prazeres, não vou contar quantas calorias têm cada biscoitinho desses aí!

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Vinho com passas de uva

Uma ode ao enoturismo com sabor suave e aroma característico.

Já disse que não gosto muito de frutas secas, né?

Mas abri uma exceção pra essa belezinha e não me arrependi!

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Manjericão

Novidade da biscotteria pra esse Natal que eu tive a honra de provar em primeira mão.

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Gergelim

Superindico pra acompanhar uma cervejinha.

Sabe-se lá se é a harmonização correta, mas lá em casa funcionou que é uma beleza!

 

Como tudo o que é bom, os biscoitos Itallinni têm o seu preço. Um pacotinho de 100 gramas não sai por menos de R$ 5, que valeram cada centavo meu. A proprietária me contou que 80% da produção é destinada a cestas. Então, já vou me adiantando… a quem queira me presentear esse ano, não esqueça da minha latinha Itallinni!

 

Itallinni
Linha 15 da Graciema, 332, Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves
Contato: (54) 8402 2946
www.itallinni.com.br

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Seduzida por um vendedor de frutas de luxo

Você não tem ideia de quanto pode custar uma caixinha de frutas até ir ao Mercado Público de São Paulo e ser seduzida por um vendedor de habilidade invejável e contador de causos comoventes:

“Era uma vez uma mulher de meia idade que acabara de perder o pai. Numa viagem de trabalho a São Paulo, ela passou despretensiosamente pelo Mercadão e parou em frente a este mesmo vendedor. Ele a convidou para degustar um pedaço de pitaya e a mulher lacrimejou. Seu pai sempre quis provar daquela fruta, mas não teve tempo.
– Então, quantas a senhora vai levar em honra ao seu pai?
E ela disse:
– Com esse preço, meu filho, vai pro diabo que te carregue!
– Bem, o dinheiro está aí pra ser bem aproveitado. Aquela mulher perdeu a oportunidade de ser feliz por um momento. Você não faria o mesmo, não é, moça? Leve logo duas!”

O cara não era meramente um quitandeiro. Era um consultor de vendas de artigos de luxo, só que perecíveis. Meu irmão, que mora em São Paulo e já conhecia aquelas delícias todas, foi se afastando de mansinho e me esperou umas quatro bancas depois. Ele sacou na hora a armadilha ($$$). Eu, extasiada com a combinação de sabores, me deixei seduzir. Com essa história de filha pão-dura e algumas argumentações a mais, o cara me fez desembolsar simplesmente 400 reais em frutas. Se estou arrependida?

bancaBem… até passou pela minha cabeça sair correndo e fingir que não era comigo. Mas até a embalagem dos caras é um capítulo à parte. Eles são muito profissionais. Acomodaram cada tipo de fruta bandejinhas de isopor com respiro. Depois, todas elas em um caixote de madeira muito bem lacrado com fita adesiva. Tudo acondicionado perfeitamente para viagem. No fim das contas, rachei o prejuízo com o “namorido” e saí feliz – com um sapato a menos no guarda roupa, mas sabores a mais no meu repertório. Diante de tantas cores, você também não ficaria tentado?

Levei tudo pra casa e comecei uma doce e paulatina degustação que se estendeu por um mês. Não me pergunte como, mas as frutas aguentaram. Trouxe cinco variedades diferentes, então vou fazer um ranking pra ficar mais emocionante!!!

abacaxi

5º lugar: Abacaxi Gomo-de-Mel

É muito, muito doce e muito, muito amarelo. É bem diferente de um abacaxi comum.

É mais suculento e bem pequeno, pra consumo individual mesmo.

Pra quem gosta de cítricos, é uma explosão de sabor.

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4º lugar: Decopon
Resumidamente, é uma bergamota gigantesca, doce e sem semente.

Descobri que, na verdade, o troço é um híbrido das frutas pokan e kiyomi (???) inventado pelos japoneses.

Valeu a experiência. Quem gostou mais foi a minha filha.

cherimoia

3º lugar: Cherimoia 

É branca, macia e tem gosto de leite condensado – sério!

É uma alternativa muito louca pra quem está de dieta.

Você não acredita que aquilo é um produto da Mãe Natureza!

O consultor de frutas de luxo nos deu pra provar com gotinhas de limão siciliano por cima e ficou idêntico a mouse de limão. 🙂

pitaya

2º lugar: a famosa e emblemática Pitaya 
Ela é conhecida também como fruta do dragão por sua aparência escamosa

(agora me senti escrevendo uma reportagem para a editoria de saúde!).

É doce, mas suave. Lembra melão e fiquei sabendo que tem poucas calorias.

O preço, em compensação, é salgado. Cada uma custou mais de 40 reais e você pode não acreditar,

mas já passou um mês e ainda tem um exemplar desses intacto na minha geladeira!

morango

1º lugar: Morango com Tâmara
Morango todo mundo conhece, tâmara também não é tão difícil de encontrar.

Mas a combinação dos dois é surreal! Claro que os morangos do Mercadão eram gigantescos, doces… e caros.

Mas se eu pudesse voltar lá, eram os morangos com tâmaras que eu compraria de novo.

De tudo, o que ficou foi a experiência e meu bolso um pouco mais vazio. Sabe como é, um bom vendedor sempre consegue o que quer. Considerando uma cliente curiosa como eu, então, a venda era certa!

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Mortadela amiga

Relacionar-se com a comida é uma questão de tentativa e erro. Quem nunca ousa, não vai se arrepender de uma grana mal investida. Também jamais vai experimentar o esplêndido prazer que a boa comida proporciona. Eu disse boa, não cara. Quem gosta de comer, sabe que comparar tipos e estilos gastronômicos é injusto. Quem gosta de comer, paga bem (quando pode) pra conhecer um pouco mais da alta gastronomia, mas também fica confortável comendo um xis na esquina e enche o prato até a borda quando a mãezinha faz aquele feijão com gosto da infância.
Mas todo mundo tem birra com algum tipo de comida. Eu me incluo nessa lista. Já estive frente a frente com um escargot e não tive coragem de ir adiante. Pudera, já é difícil de olhar, que dirá colocar na boca. Também tem algumas coisas que a gente aprende a desgostar na infância e depois sofre pra perder o preconceito. No meu caso, não gostava de mostarda, mas passou; não gostava de cenoura, e também passou. Minha mãe conta que eu também não comia banana até o dia em que ela me flagrou na casa da vizinha debulhando meio cacho.
Agora, a mortadela eu sempre de-tes-tei. Ou melhor, até a experiência que vou contar agora. Estando em São Paulo e no meio do Mercado Municipal Paulistano, não ia perder a oportunidade de comer aquele famoso sanduíche que é símbolo da cidade. É como um paulista vir pra cá e não comer churrasco. Tudo bem se ele for vegetariano, mas fora isso, a comida é um dos quesitos que mais traduz a cultura e o modo de vida das pessoas. Se você vai a um lugar e não prova nada que a culinária local oferece, é como se não tivesse saído de casa.
No Mercadão, além de sofrer um desfalque com a história das frutas que vou contar no próximo post – ainda as estou comendo e fotografando – também sentei no famoso Mortadela Brasil pra tomar um chopinho e descansar os pés de toda aquela maratona na 25 de Março (atire a primeira pedra quem nunca…). Eles simplesmente têm 23 tipos de sanduíches de mortadela e rodada dupla de chope Brahma das 15h às 18h!!! Pra começo, pedi um bolinho de bacalhau, porque váááá que eu não aprovasse a mortadela – aí pelo menos não passava fome. Era ótimo o bolinho. Grande pra caramba, suculento, R$ 15 por duas unidades de 100 gramas. Valeu a pena e coisa e tal, mas considerando o que veio depois, foi dispensável.

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Bolinho bom, mas o melhor veio depois

Eu valorizo muito o trabalho do garçom e não admito ficar esperando a eternidade só pra receber o cardápio. Quanto a isso, sou bem chata até. A experiência é outra quando você é atendido por um garçom que entende do negócio, é cortês, conhece os pratos da casa e responde com propriedade quando você pergunta qual a sugestão do dia. Aquele que nos atendeu no Mortadela Brasil foi impecável apesar da casa lotada e, de cara, disse que a gente não podia deixar de provar o Brazuca, carro-chefe da casa.
Estávamos em três e acabamos pedindo tipos diferentes pra provar um pouco de cada. Não sei qual é o ingrediente secreto desse troço, mas certamente na minha próxima ida a São Paulo vou ter que repetir a dose. O Brazuca, indicação do garçom, realmente era o melhor de todos. Muuuuita mortadela Bologna, bacon crocante, cheddar até dizer chega e uma pitadinha de alface americana pra amenizar a culpa. Os outros também eram legais, mas não tanto. Eram de pernil e lombo canadense. Quando minha mãe ler isso, não vai acreditar que eu gostei mesmo foi da mortadela!!!

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Com a tal rodada dupla de chope, acabei esquecendo de anotar o preço, mas a conta toda com o bolinho, os três chopes que pagamos e os três sanduíches deu aproximadamente R$ 100. Não vale super a pena? Só de lembrar, bateu uma fominha…

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Mamma mia, que polpetone!

Semana passada, fui a São Paulo cumprir uma agenda de compromissos particulares e, mesmo sabendo que teria refeições cronometradas, não podia perder a oportunidade de comer alguma coisa deliciosa. Pus embaixo do braço o Guia Época de melhores restaurantes da capital paulista e saí de casa cedinho rumo ao Salgado Filho. Embarquei com sol rachando em Porto Alegre e fantasiei um passeio a pé, um chopinho esperto e um sushi na Liberdade. Quando cheguei a São Paulo, chovia uma chuva fininha, esparsa e inconveniente. Do tipo que não forma poça, mas meleca os cabelos. E, principalmente, do tipo que transforma São Paulo num cenário dos horrores.

Pra quem dirige de Bento Gonçalves a Garibaldi em 15 minutos e ainda reclama se pega um caminhão na frente, ficar duas horas dentro de um táxi pra percorrer os mesmos 10 quilômetros é de azedar o humor. Chegando ao hotel, a chuva apertou. Foi-se o passeio pé, o chopinho e o sushi. A única alternativa foi atravessar a rua e entrar no primeiro estabelecimento possível – um restaurante italiano. De cara, a ideia de sair da Serra Gaúcha e comer comida italiana em São Paulo pareceu meio estapafúrdia. Mas era isso ou ficar à míngua e, no fim das contas, foi realmente um golpe de sorte.

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Pra começar, não se tratava somente de um restaurante, mas de uma alameda inteira com diversos deles – todos da Famiglia Mancini. Dava pra escolher entre pizzas, pastas, petiscos e até comida francesa. A ruela de 100 metros em formato de S, toda decorada com luzes coloridas, faz você esquecer que está no meio da metrópole. Àquela hora do dia, a fome já estava afetando o meu humor e a chuva, estragando os meus cabelos. Entramos logo no primeiro restaurante da alameda e me conformei que o prato seria italiano mesmo.

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Na mesa ao lado, notei que a legítima lasagna italiana vinha borbulhando do forno e era servida em porções individuais dentro de uma panelinha de ferro. Simpático. Comecei a me desarmar e perceber que a comida italiana de São Paulo podia ser bastante diferente. Acabei pedindo a oferta da casa, que consistia em entrada, prato principal, sobremesa e café – tudo por R$ 39,90 (!!!). Pedi ao garçom pra apressar ao máximo a entrega, pois a fome era grande. A sala era bem bonitinha, com muçarela de búfala e palmito fresco. Uma delícia.

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Como prato principal, pedi um legítimo polpetone e achei engraçada a apresentação. Na Serra Gaúcha, jamais me serviriam arroz e batata frita como acompanhamento. Em compensação, também nunca comi por aqui um polpetone desses: macio, cheiroso, no ponto, temperado na medida e praticamente mergulhado no queijo. Repensei o preço do almoço e minha satisfação aumentou ainda mais: R$ 39,90 por tudo aquilo.

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Pô, além de tudo o restaurante tinha sua própria água. Achei engraçadinho.

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Já estava deleitada quando vieram a sobremesa e o café. Não sei por que pedi o pavê de nozes, considerando que não gosto de chantilly. Mas o mousse amargo que o meu acompanhante pediu estava muito bom 😀

Esse restaurante de preço justo e comida honesta acabou me fazendo refletir sobre preconceitos gastronômicos. Por dois motivos, quase não entrei no Famiglia Mancini: o ambiente, com piano e uma grande adega de vinhos importados, me fez pensar que o desembolso seria grande. Além do que, eu pensei que seria perda de tempo gastar com comida italiana em São Paulo. Quase perdi o melhor polpetone que já provei até hoje. Como a gente é bobo às vezes…Guarde esse nome: Famiglia Mancini – na República, rua Avanhandava.

A propósito: foi sorte eu ter conseguido um bom preço nesse dia, porque na tarde seguinte cometi o pior dos piores deslizes: fui seduzida por um vendedor do Mercado Público (no sentido culinário mesmo) e…bem… minha conta bancária vai passar um bom tempo remoendo a respeito. Você não imagina quanto pode custar meia dúzia de frutas de luxo. Mas isso é assunto pro final da semana, pois ainda as estou comendo e fotografando. Posso adiantar que a experiência é tão marcante para o paladar quanto para o meu cartão de crédito!

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Faltou mira no jantar grego

Este é o relato de uma noite fria, estrelada e desastrada. É um daqueles momentos em que você prefere culpar a bebida, embora nem tenha entornado tanto assim. Nesse dia, atestei mais uma vez que a extrema empolgação pode comprometer suas funções motoras.

Quem me conhece sabe o quanto gosto de ocasiões temáticas. Pra uma festa à fantasia, nem preciso de pretexto. E se eu já gosto de comer, jantares temáticos são uma tentação ainda mais irresistível. Dito isto, soube que em Bento Gonçalves haveria um jantar grego e coloquei meu nome na fila sem sequer perguntar o preço (a propósito, nunca faça isso!). Não sabia nada de comida grega, além da quebradeira de pratos que deveria acontecer no final.
Dias antes do dito jantar grego, uma amiga me avisou: quebra com força, porque se o prato ficar inteiro, dá azar pra toda vida. Fiquei muitíssimo preocupada e imaginativa. Não deu outra: na hora de quebrar o bendito prato, mirei cá e acertei lá. Acho que vocês merecem saber o que deu errado, mas só no final! Antes, vamos ao que interessa: ojantar…

Ainda não contei onde foi o tal jantar grego, mas o ambiente e a anfitriã merecem apresentação especial. Pra mim, o Café com Arte, da querida Cristina Valenti, é o bistrô mais aconchegante de Bento Gonçalves. É o tipo de lugar em que você chega, senta e, depois de meia hora, já se sente à vontade pra pegar sua própria bebida e opinar sobre o cardápio. Não tem frescura… você pode levar as crianças e, com certeza, elas vão achar o que fazer.

A casa antiga é de uma requintada singeleza (pode isso?) e abriga, além do café, um brechó e uma escola de música. O futon ao ar livre é onde gosto de me recostar e deixar que o tempo passe. O cardápio é honesto e consiste em um prato do dia para almoço e jantar (preço entre R$ 25,00 e 35,00) e algumas opções de boquinha. Tem uma pizza caseira de atum que é simplesmente o sabor da infância e um bolinho sem lactose e sem glúten servido com geleia de flores de pirar o cabeção dos celíacos.
Vale a pena ligar antes de sair de casa, porque às vezes o Café fecha para eventos particulares – o que também é ótimo, se você quer reunir os amigos no seu aniversário, mas não sabe onde. O espaço é pequeno e, quando enche, você pode sentar num banquinho no corredor mesmo. Mas nesse dia em especial, o dia do Jantar Grego, foi montada uma estrutura “profi” com tenda, mesas, lustres e castiçais na parte externa do café. Essa foi a minha primeira experiência com comida grega, então achei que faltou o garçom detalhar um pouco mais o prato no momento de servir. Acabei catando as informações na internet pra publicar aqui.

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O couvert era bem simpático. Pão pita (que depois descobri ser o mesmo que pão sírio) com três tipos de pasta: 1- azeitona; 2- iogurte com pepino e alho; 3- berinjela (o melhor, para mim). Tudo tem berinjela ou azeitona. Ou seja, é pra quem aprecia pratos bem marcantes.

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A entrada foi o melhor prato, a Melitzanosalata, ou salada de berinjela. Não dá pra decifrar tudo o tinha ali, mas o sabor era complexo e delicioso. A fortidão da berinjela contrastava com a doçura de passas brancas e a crocância de nozes.

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O prato principal cuja pronúncia nem tentei era o Soutzoukakia e Moussaka. Dá resumir como almôndega de carne bovina e de carneiro com um molho vermelho bacana servido sobre uma caminha de berinjela com batatas. Legal, mas a medalha de ouro ainda permaneceu com a entrada.

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Como sempre, na hora da sobremesa eu mal conseguia respirar, que dirá comer. A tal da Baklava é uma massa folhada com nozes e castanhas. Bom também, mas nessa hora um garçom já estava posicionando uma pilha de pratos limpos no meio do salão. Era chegada a hora!

Havia uma grande caixa de metal com tijolos no fundo pra facilitar a vida de algum azarão e garantir que o prato ia se quebrar com a queda. A caixa devia ter algo em torno 1,5m X 1,5m. Tudo o que eu tinha de fazer era me aproximar e jogar o prato dentro dela. Infelizmente errei a mira, meu prato escorregou pela borda da caixa e alçou voo se espatifando nos pés de uma moça que desfrutava do jantar com seu acompanhante. Fiquei vermelha, paguei a conta e fui embora. Agora estou arrependida. Devia ter ficado e bebido um pouco mais.
De qualquer forma, quero salientar que a situação foi absolutamente desproposital. O meu prato enfim, caiu e quebrou. Mas quebrou no lugar errado e atingiu uma pessoa, então fiquei em dúvida se o ritual valeu. Sorte minha que não me apego a essas coisas. Tenho achado que meu ano está sendo exitoso – afinal, estou aqui escrevendo pra vocês.

Ops, ia esquecendo de contar o preço do Jantar Grego: R$ 95,00 por pessoa, sem bebida.

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Enfiando o pé na jaca parte 1: Casa Valduga

Tem dia pra homenagear de tudo nessa vida: o sol, os solteiros, o orgasmo… Aproveitei que semana passada foi comemorado o Dia Mundial do Macarrão pra enfiar o pé na jaca da dieta. Pesquisando sobre o assunto, descobri que o Brasil é o terceiro maior consumidor de massas do mundo, perdendo apenas para Itália e Estados Unidos.
Obviamente, nunca havia calculado quanta massa costumo comer, mas fiz umas contas rápidas pra verificar se eu estava dentro da média de seis quilos de macarrão que um brasileiro consome por ano, em média. Bom… levando em conta quantos dias tem num ano e quantas porções de massa têm num quilo, sinto informar que devo comer por mim e mais uns três amigos celíacos. :-O
Enfim, se há lugar ideal para massamaníacos é a Serra Gaúcha. Creio que massas e pizzas sejam a especialidade em 80% dos restaurantes por aqui. Chutei baixo? Um turista ou morador da terrinha pode se esbaldar em dezenas de bons restaurantes. Mas eu, quando não quero arriscar, tenho meus preferidos.
Já tinha ido muitas vezes à Casa Valduga e achei superapropriado comemorar o Dia Mundial do Macarrão lá mesmo. A sequência completa custa R$ 52,00, que valeriam a pena só pela costelinha de porco com geleia de pimenta. Mas a experiência dá direito à música ao vivo na recepção (somente nos finais de semana e feriados) e uma refeição preparada somente com ingredientes da casa. Isso, na minha opinião, é que o torna cada restaurante único em sua proposta de comida italiana.

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É tudo muito típico. Na entrada, queijinho, salada verde que às vezes vem com uns grãozinhos de romã, radicci com bacon e pien – este último, sem demérito, prefiro passar reto. As folhas são todas orgânicas e produzidas na horta do restaurante, o que, além de saudável, garante um prato sempre fresco.

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Aí vem o galeto e o porquinho divinos… e começa o desfile de massas – algo que só vai pesar na sua consciência no dia seguinte. São todas feitas no próprio restaurante.

Não tenho bem certeza de quantas variedades são servidas, mas contei sete. São todas boas, mas a medalha de ouro vai pro torteloni com nozes.foto 2

Pra terminar, preciso fazer uma seriíssima confissão: não gosto de sagu! Calma, gente. Antes que as vaias comecem a ecoar, é que talvez eu nunca tivesse comido um sagu que prestasse de verdade. Por isso, sempre ficava com o pé atrás pra essa sobremesa queridinha da culinária italiana. Mas aí eu comi o sagu da Casa Valduga e……..bem………. não pude comer apenas uma taça. Acabei repetindo. Fiquei tão envolvida pelo sagu que esqueci de fotografá-lo!!!
Então é isso, gente. Saí de lá, digamos, macarronada, mas feliz! E como já não estava tão frio, pulei os vinhos e acompanhei o jantar com o brut rosé da casa.
O cardápio é pra se deleitar com mea culpa (porém, esporadicamente)! Qual a graça da vida sem um belo e suculento prato de macarrão? Dias atrás, alguém postou essa foto no Facebook, que eu achei sensacional e apropriada para um post com tanto carboidrato embutido como este.

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Semana que vem, tenho uma história hilária pra contar sobre um tal jantar grego e minha experiência de quebrar pratos perigosamente!

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Culinária com uma pitada de jornalismo. Bento Gonçalves, Serra Gaúcha.