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Vila Flores: uma experiência de fé altamente gastronômica

Para o mal ou para o bem, cada um de nós recebe a cruz que pode carregar para ficar mais forte, paciente e consciente. E o mais reconfortante: quando você estiver precisando de amparo, basta abrir-se para o universo que o apoio virá. Esse convite para conhecer o tour da experiência de Vila Flores foi providencial e o indico para qualquer um que careça de um dia de paz em meio à natureza e rodeado de sorrisos hospitaleiros.

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Tirei dois dias pra ficar desconectada e parti rumo à pequena Vila Flores, onde, logo na chegada, esta a pousada dos Capuchinhos. A lembrança é de um lugar tranquilo, belíssimas obras de arte resgatadas do ostracismo e um café da manhã mais que completo.

A história dos freis nessa região começa na década de 1940 e foi exatamente naquele lugar que funcionou, por quase 60 anos, um colégio interno e um seminário. Revitalizado, o prédio começou a funcionar como pousada a partir de 2008 e ainda conta com seis freis internos que administram o lugar – entre eles, um frei enólogo responsável pela produção de suco, graspa, vinhos finos e canônicos que são vendidos na recepção.

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A pousada é demais. Os salões preservam muito da arte sacra que veio da França junto dos primeiros freis. É emocionante de se ver.

Os vitrais que emolduram a capela, por exemplo, são da década de 40, assim como os 32 hectares de vinhedos próprios que garantem a maior parte da produção enológica da congregação.

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A ligação com a natureza, que é o cerne dos ensinamentos do padroeiro desse lugar, é muito presente na pousada. Uma pequena trilha nos arredores da pousada percorre cada verso da oração de São Francisco de Assis: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”. Ainda pequena, a trilha “Paz e Bem” será expandida para toda a propriedade até o ano que vem, quando a pousada deve inaugurar também suas águas termais.

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Apenas pela vivência de fé já valeria a pena ter saído de casa, mas o fato é que a experiência de paz, pão e vinho de Vila Flores vai muito além.  Depois de umas horinhas curtindo a pousada, partir em direção ao atelier L’Arte Ceccato, que explora os saberes populares do imigrante, oferecendo uma vivência de chás medicinais, simpatias da nona e uma delicada produção de peças sacras em cerâmica.

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Localizado na comunidade Aimoré de Vila Flores, o refúgio da família Ceccato guarda lembranças da tradição ceramista da família, que teve o sustento por muitas gerações na produção de tijolos e hoje divide seus saberes por meio do turismo de experiência, embora a olaria ainda exista e produza até 150 tijolos por minuto.

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Na família Ceccato, conheci um pouco do potencial de uma horta medicinal onde cada canteiro guarda benefícios a uma parte do corpo e provei um suco cítrico digestivo com laranjas direto do pomar. Só gente do bem e divertida!

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À noite, lanternas de vela guiaram nosso caminho até um tradicional e divertidíssimo filó italiano.

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Aqui, a comunidade se une em contações de histórias e serve os convidados em uma mesa muito, muito farta.

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Depois de uma noite de repouso e um passeio pela trilha Paz e Bem, não podia deixar Vila Flores sem conhecer a Vila do Pão, uma casa de 103 anos que já abrigou seis gerações e já foi comércio de vários tipos, tendo sido revitalizada como padaria e confeitaria no mesmo ano em que abriu a Pousada dos Capuchinhos.

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Lá se vende tudo que se pode comer no café da tarde, incluindo pães gigantescos de até 10 quilos. Mas aí precisa muita família comendo junta!

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Para mim, uma porção generosa de ambrosia, que me lembra muito minha vó e que deixou um sabor de saudade. A Pousada dos Capuchinhos, o L’Arte Ceccato, o Filó de Vila Flores e a Vila do Pão são empreendimento da Região Uva e Vinho que integram o Tour da Experiência, um projeto do SEGH – Uva e Vinho em parceria com o Sebrae que  valoriza e promove experiências turísticas na Serra Gaúcha e outras quatro regiões no Brasil: Costa do Descobrimento, Caminhos do Brasil Imperial, Bonito e Belém.

Osteria Della Colombina: mais que uma refeição, uma contemplação

*Alerta de post longo. Desculpa, mas vale a pena

 

Quando criou o movimento Slow Food, há 26 anos, o jornalista italiano Carlo Petrini o fez por acreditar na gastronomia como via de transformação. Por acreditar no respeito ao meio ambiente, na biodiversidade e num modo de vida menos massivo. Eu também acredito nisso. A gastronomia boa, limpa e justa movimenta o corpo, a alma, comunidades inteiras, a economia e o planeta. Vi de perto essa transformação quando bati à porta da Osteria Della Colombina e provei de uma comida tratada como expressão cultural.

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Coisas mágicas acontecem da propriedade Bettú Lazzari, no interior de Garibaldi, que pertence à família desde o primeiro imigrante a pisar no Brasil. Por três gerações de agricultores, a mesma terra deu-lhes, mas, viúva precocemente, Odete e as quatro filhas mulheres não puderam manter o ritmo de produção das videiras e vacas leiteiras. A propriedade começou a se degradar e as mais velhas se mudaram para a cidade, num movimento de êxodo rural que se repetiu com centenas de famílias na Serra Gaúcha.

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A caçula Raísa provavelmente seria a próxima a deixar o interior se a mãe não estivesse com o ouvido ligado no radinho quando a prefeitura de Garibaldi anunciava a criação de um projeto-piloto de turismo rural. Durante dois anos, Odete e as filhas preparam a casa e a propriedade para a criação da Estrada do Sabor. Em 2001, abriram as portas para os primeiros turistas e aí começa a transformação que a comida boa, limpa e justa é capaz de promover.

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Pra começo de conversa, a propriedade agrícola tem certificado de produção orgânica. Tudo o que é produzido na horta, nos pomares e no curral é livre de agrotóxicos e vai direto da terra para a cozinha. Impressionantes 75% do que é servido aos clientes é produzido ali mesmo – incluindo o queijo, o suco e o vinho. Além de parada obrigatória na Estrada do Sabor, a família Bettú Lazzari é uma das fundadoras do convívio local do Slow Food na Serra Gaúcha. Também é um dos estabelecimentos que faz parte do Tour da Experiência, uma iniciativa do Sindicato Empresarial da Gastronomia e Hotelaria (SEGH).

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Isso é movimento, é engajamento, é a transformação de que Carlo Petrini fala. Já seria o suficiente pra esse post, mas ainda nem falei da comida. No porão da casa da família, ainda de chão batido e ornamentado com objetos centenários, serve-se muito mais que um cardápio farto. Serve-se um resgate histórico da imigração italiana, representado por objetos de família e pela honestidade de cada receita. Acompanha comigo:

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O limoncello, feito com os limões do pomar…que bebi na hora errada, antes do almoço 😉

 

 

 

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Pra abrir os trabalhos gastronômicos, uma tradicionalíssima polenta brustolada com queijo e salame.

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A sopa de capeletti, para mim, é a maior representação gastronômica da cultura, dos fazeres e dos sabores do imigrante. A sopa da dona Odete, natural e autêntica, dificilmente será superada.

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A salada orgânica tem sabor de verdade e traz a delicadeza das flores comestíveis: flor de crem e dente-de-leão.

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A sequência de pratos principais é tipicamente italiana. Ou seja, farta e forte.  O nhoque aos três queijos acompanha uma galinha ao molho lentamente cozida em molho de tomate e especiarias.

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Como se já não fosse suficiente, escalopes de carne com legumes grelhados e bacon…

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…e uma tradicional fortaia. Depois podia repetir tudo, mas nem que eu quisesse conseguiria.

 

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A mesa de doces encerra esse banquete slow food que demanda tempo, bom humor e boa companhia para ser desfrutado à altura. Tudo é feito por dona Odete: sorvete de creme e limão siciliano com goiabada; compota de laranja e os biscoitinhos típicos chamados de sfregolá.

A Osteria Della Colombina atende somente com reservas para grupos, mas você pode fazer como eu e se encaixar em um grupo maior, aproveitando a agenda de abertura da casa. Vá com tempo: essa é uma refeição que não se faz em menos de duas horas.

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Cada visitante da osteria leva consigo uma pequena colombina, tradição dos imigrantes que Odete orgulhosamente preserva e dissemina.

 

 

A experiência completa custa R$ 55,00 (bebidas à parte). E, além de tudo que come estando lá, também dá pra levar um pedacinho da osteria para casa com as geleias, compotas e conservas orgânicas de dona Odete. Espero ter conseguido expressar que não se trata apenas de uma refeição, mas de uma reflexão e uma contemplação.

Osteria Della Colombina

Estrada do Sabor, comunidade Linha São Jorge, Garibaldi

Reservas: (54) 3464 7755 ou (54) 9121 1040

E-mail: colombina@estradadosabor.com.br